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O menino das goiabas verdes

Antes dos donos do lote vago, bem antes dos pardais e dos morcegos, ele chegava. Colhia ainda duros e pequenos os frutos, surpreendendo a natureza, assaltada em seu ciclo pela ansiedade infantil. As goiabas só lhe eram possíveis verdes. Achava natural que fosse assim, o travo do fruto em sua boca, o sabor acre da conquista resignada repuxando entre os dentes de leite. Depois, sentado sobre o muro escalado, vinha-lhe um pouco de dor de barriga. Ser o menino das goiabas verdes pagava a cólica com sobras.
Minha adorável caixa de spams

Faço da minha caixa de entrada de emails a minha agenda. Enquanto há itens ali, há coisas urgentes para serem resolvidas, solicitações sem fim que pululam sem me dar sossego. “Não mexe com quem tá quietinho”, penso a cada email em negrito que se empilha no vórtice incessante da minha lista de pontos vermelhos de exclamação.
Ontem, em um momento de pura fuga, resolvi adentrar minha caixa do lixo eletrônico. Queria ter o prazer de excluir uma lista inteira em um clique, sem ter de fazer absolutamente mais nada. Antes disso, porém, para aumentar o prazer de tudo poder desprezar sem piedade ou clemência, comecei a ler algumas mensagens. A Cristina me apresentava o Guia do Orgasmo Feminino; o Carlos me garantia um condomíno com reserva ecológica para pagar em trinta anos; a Andressa, da Nutrilife, revelava um infalível tônico contra a calvície, com entrega em todo o Brasil. Vinha da Vivamais a certeza de que a minha vida sexual só melhorará com o passar dos anos. A PlusVita me dava a possibilidade real de ter o meu pênis expandido em cinco centímetros, fora os inumeráveis comprimidos azuis que acompanhavam o pacote, certamente para uma perfeita medição na aferição diária do milagre.
Encantei-me vertiginosamente, tragado por esse mundo cor-de-rosa e azul. A Adriana me oferecia mostrar tudo virtualmente e a Danielle, com dois elles, carícias que eu jamais poderia imaginar com a massoterapia nipotailandesa. O Hugo, com piadas impagáveis, o Camilo, com uma fonte inesgotável de renda sem sair de casa e o canditato defensor dos animaizinhos de estimação, com sua plataforma para um mundo mais fofo, definitivamente me deixaram exultantes.
As mais de duzentas possibilidades verdadeiramente sedutoras daquele universo fizeram com que eu me sentisse um rato hedonista do lixo eletrônico. Adentrei maravilhado as paredes do templo spam, ornadas de flores online impressas com toners multicores recarregáveis a custo zero. Vinham-me passeios ciclísticos da primavera, todos na direção de clubes privados atendidos por planos de saúde com atendimento global e integral.
Agora virou um vício: visito os meus spams regularmente, como a amigos fraternos que só me desejam o melhor, que só anseiam pelo meu bem, meu bem-querer. |
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Perfil do autor:
 Marcílio Godoi é arquiteto e jornalista. Só isso já demonstra a fragilidade da criança, a instabilidade do sujeito. Sujeito a rusgas e tijoladas, como queiram. Certa vez, quis colocar o pé direito na sapata da boneca e aí se deu mal, claro, e mudou de profissão. Disseram-lhe que o arquiteto se acha. Ele foi ver e descobriu que o jornalista se tem certeza. Então fundou uma empresa de produtos editoriais customizados onde trabalha como designer e editor e foi feliz para sempre enquanto a vida não lhe provar exatamente o contrário. Publicou, entre outros, A Pequena Carta (Bom Texto), São Paulo, Cidade Invisível (Letras e Expressões), Pequeno Dicionário Ilustrado de Palavras Invenetas e Ingrid, uma História de Exílios (Sagüi). É colaborador da Revista da Língua com a sessão “O português é uma figura”. |