|
O Buraco
(Valéria Dantas)
Seu Juvenal precisou fazer um conserto num cano e abriu um buraco na calçada. Conserto feito, o buraco não foi fechado. Com as chuvas de inverno e o passar do tempo, o buraco foi alargando e se esburacando mais e mais. Passava da calçada e pegava parte da rua, num bairro de São Gonçalo, município de Niterói.
Seu Juvenal não dava a mínima para o desconforto que isso causava nos vizinhos, não estava nem aí pra hora do Brasil. Morava sozinho. Aos sábados, pela manhã, costumava lavar seu Fusca em outra calçada, já que a dele estava toda esburacada. Sem camisa ficava a exibir seu físico magro achando-se irresistível. Metido a galã era o Seu Juvenal.
Os moradores já tinham feito reclamações e nada. Ele dizia que a despesa em fechar o buraco deveria ser de todos os moradores, pois o buraco já era propriedade da rua.
Um buraco enorme numa rua subida, estreita e sem saída, complicava e muito a vida das pessoas. Caminhão de lixo não subia. Os lixeiros reclamavam, moradores resmungavam. Que estresse! Certa vez, uma moradora comprara uma geladeira. Foi um fuzuê. O motorista e os entregadores negaram-se a subir. Ela bateu na casa do Seu Juvenal que não estava. Então, convocou alguns homens da rua que, junto com os entregadores, levaram a geladeira até a sua casa.
- Eu ainda vou dar na cara desse careca. – Disse a dona da geladeira irada.
Foi aí, que marcaram uma reunião, numa tarde, aparentemente, tranquila de sábado.
- Bom gente, vamos tentar chegar a um acordo sobre o que faremos com o buraco do Seu Juvenal – começou a falar o Clóvis, o gente boa da rua – Seu Juvenal diz não ter possibilidades de fazer o conserto. Então, eu proponho...
De imediato foi interrompido pela Cleusa, sua mulher:
- Epa, epa, epa, Kró, – gritou a mulher mesmo estando tão próxima dele – pó parar, não tem condições, o escambau, tá? Aqui pra ele, ó! – ao fazer o sinal feio, enrubesceu as faces do marido .
Cleusa era manicure e estava uma fera por ter perdido algumas freguesas por não suportarem passar pelo pedacinho de rua que sobrava, até chegar ao pequeno salão montado, num puxadinho da casa dela.
- Onde já se viu!? Esse homem é egocêntrico – disse Carmem Lúcia.
- Que isso, Carmilúcia? Deu pra falar difícil agora? – Interrompeu a irmã, Lúcia Helena, cheia de dor de cotovelo, pelo fato da irmã ter voltado a estudar e, ainda por cima, estar namorando, enquanto ela curtia sua solteirice involuntária.
- Aff, Lúcia Helena! Egocêntrico é uma pessoa que só pensa em si mesmo. Aprendi na aula de Filosofia do Supletivo. Falei pra você fazer comigo. Fica por aí bestando...
Um pouco mais afastadas Léa e Dircéa, as fofoqueiras da rua, mexiriqueiras de plantão, não paravam de disparar seus venenos.
- Vê, Dircéa, como é intrometida essa Cleusa? Não deixa o pobre do seu Clóvis falar, coitado! Dizem que ele apanha dela...É...Se acha a melhor manicure. Eu que não dou meus dedos para ela tirar bifes.
- É, uma fominha essa daí. E digo mais: Carniceira... Diz que as freguesas deixaram de vir por causa do buraco do seu Juvenal. Mentira! Desculpa esfarrapada!, Quem guenta o grito dessa maluca chamando “Kró!!“. Já ouviu? Parece uma galinha garnisé... Ah, nem te contei... Dona Clô tá com micose no dedão do pé, disse que pegou esse unheiro lá.
- Como eu ia dizendo Dircéa, a Carmilúcia também é outra. Já reparou como fica no portão aos beijos com esse namorado que arrumou sabe-se Deus lá onde? Pra arrumar uma barriga não precisa muito, né?
- Mal vestiiido, coitado! Ontem, ela chegou de moto com ele.Toda empinada. E a Lúcia Helena não fica atrás, não! Tá sempre com um olho comprido pra cima do marido da Juçara. Essas duas, sei não. Depois que a mãe se mandou com aquele caminhoneiro e o pai morreu de desgosto, que Deus o tenha... Hum. Boa coisa não vão ser...
Seu Clóvis tentava falar, o dedo indicador levantado pedindo a palavra. Tumulto geral. Ninguém se entendia.
- Por favor, gente, atenção! Olha, eu.... É que eu acho.... Peraí, gente... Vamos nos entender... O seu Juvenal... Hã? O quê, minha senhora? Se ele tem mulher? Eu sei lá? Precisamos resolver o problema do buraco do Seu Juvenal. Agora, se ele tem mulher, isso é problema dele. Buraco eu sei que tem, quer dizer, todos nós aqui sabemos.... Precisamos chegar num acordo para fecharmos com sucesso e alegria o buraco do Seu Juvenal.
Seu Clóvis se atrapalhava todo e não conseguia nenhuma solução. Até que chegou Divina, uma moradora que diziam ser uma “periguete” e tivera até um caso com seu Juvenal.
- Posso falar? Dá licença? Com licença? Minha senhora, cale a boca, por favor?
Foi geral:
- IIIHHH!!!!
Ela deu meia volta e saiu de fininho.
E o blá-blá-blá continuava.
Até que, ao ouvirem um barulho de motor de carro, todos se viraram:
- Olha só, chegou o gostosão! Quero só ver o que o Bruce Willis, depois da gripe suína,vai dizer – grita Cleusa, mais uma vez, envergonhando o pobre do Kró , ao ver chegar Seu Juvenal no seu fusquinha 71 com insufilm nos vidros.
- Gostosão? Credo! Nem com chantily na borda eu queria... – falou Janete, calada até o momento.
- Tá bom, tá bom. Tu tá a perigo... Pensa que não sei... Nem gripe tá pegano – instigou Judite a amiga da onça.
Seu Juvenal desceu do carro, vestindo camisa de gola pólo com listras, vermelhas, verdes e brancas, cores do seu time, bermuda com cinto de elástico. Nos pés, um par de mocassim marrom, sem meias. Tirou um pentinho preto, do bolso da camisa, passou pelos poucos fios na cabeça, caminhou até a porta do carona, levantou a sobrancelha direita e deu uma tossidinha . Abriu a porta e desceu uma morena bunduda e sorridente de cabelos longos e cheia de trejeitos. Os homens de orelha em pé, as mulheres se cutucando:
- Que bafafá é este aqui no meu portão, em frente ao meu buraco? – disse Seu Juvenal cheio de propriedade.
- É que... que...
Começou seu Clóvis tentando explicar, mas se engasgou e Cleusa tomou a frente:
- Aaaahhh, apareceu a margarida! ESTAMOS A- QUI, RESOLVENDO O problema do SEU BURACO, que está atrapalhando a vida de todo mundo.
A morena percebeu a encrenca e se meteu:
- Benhê, este buraco tooodo é seu? – passando os olhos em volta.
- Bom, sim; não; quer dizer, meu, meu, né, não... Foi alargando sozinho. É que eu estava sem tempo de consertar, benzinho...
- Eca! – disse alguém.
- Cruzes! – exclamou outro.
- Então, benhê, por que você não conserta pra todo mundo ficar feliz e não meter mais o bedelho no seu buraco? – disse a morena ao mesmo tempo em que ajeitava a gola da camisa dele, deixando-o de pernas bambas.
- Lolológico, benzinho, vou fazer isso amanhã mesmo ... – E, se virando , pro pessoal :
- Tá certo. Amanhã, tá bom? Amanhã eu resolvo o problema do meu buraco, quer dizer do buraco. Até amanhã. Circulando todo mundo, porque o meu buraco não tá em exposição, não! Vem, vem, vem , meu bem vamos entrar. Temos muito o que fazer.
O burburinho continuou, formando-se grupinhos. Todos falando juntos e alto. Cada um com seus palpites e imaginação. De repente, fez-se silêncio bem na hora em que Seu Clóvis se esgoelava para falar com seu Armando:
- Mas é gostosa, a morena, né não, Armandô!?
- KRÓÓÓ!!! – gritou Cleusa toda estressada – Entra! Vamos conversar! |